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Seu Francisco, pai de Zezé di Camargo e Luciano, descansa ao lado dos seus conterrâneos

Seu Francisco, pai da dupla, morreu aos 83 anos ontem (23) e foi enterrado hoje em Goiânia


Novembro 24, 2020


Por Silvana Marta

Colunista do Estado de Goiás

Artigo de Opinião


O texto de Lucas 4:24 nos diz: “Em verdade vos digo que nenhum profeta é aceito na sua terra”.

É inegável a importância da contribuição da dupla Zezé di Camargo e Luciano, e da família como um todo para a música brasileira, em especial, para a música sertaneja.

O sertanejo romântico tem um pai, e é Francisco Camargo.

Não que ele seja o responsável único pela criação desse gênero musical, mas ele foi imprescindível para que nomes como Gustavo Lima, Marília Mendonça ou Jorge & Mateus fossem parar nos 10 mais tocados.

Isso porque na década de 90, a temática que dominava as paradas de sucesso era o amor. Ao deixar a narrativa sobre os causos do campo e a saudade da terra, os Camargos inovaram. Além do mais, o talento de Zezé di Camargo como compositor estava consolidado. Suas composições já eram cantadas por Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, que estava no topo do sertanejo da música brasileira.

A música "É o amor" inovou. Destoou de tudo o que era produzido em termos musicais até então e criou uma nova tendência. O amor ganhou novos públicos e invadiu ambientes urbanos, tendo o sertanejo deixado o campo e adentrado nas grandes cidades. A música caipira não era mais caipira. Era romântica, com uma balada mais leve e letras adocicadas. O amor atordoante levou a música popular brasileira a também mudar de rumo. Foi "É o amor" que marcou a era do sertanejo romântico, que se adaptou, se renovou e chegou até o sertanejo universitário como se apresenta hoje, com os subgêneros como a sofrência, a aproximação com o arrocha, entre outros.

“Se o sertanejo é o gênero mais popular e ouvido nas plataformas de streaming, com algumas concorrências com funk e subgêneros do forró, isso se deve à aproximação com o público das cidades com a chegada da temática romântica. A música "É o amor” está diretamente ligado à ascensão e popularização do gênero duas década atrás”. (Pedro Antunes, UOL).


Seu Francisco foi enterrado hoje (24) no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia


É neste momento de dor e de perda que a goianidade fala mais alto.

Zezé di Camargo e Luciano nasceram em Goiás, e isso nos enche de orgulho, ou pelo menos deveria. O fato de morarem em São Paulo não os tira da sua terra natal, mesmo que morando lá, desejem, inconscientemente, esquecer o seu passado sofrido, filhos de um pedreiro e de uma cozinheira. Nasceram em Pirenópolis, Goiás. São goianos. Nossos goianos. Ponto final.

Marília Mendonça, de igual modo, é goiana de Cristianópolis, assim como Jorge & Mateus, de Itumbiara. Gustavo Lima, embora mineiro, fez de Goiânia seu lar. Não é difícil esbarrar com ele em sua Ferrari vermelha perambulando pela ‘night’ goiana.

E isso nos enche de orgulho.

Francisco José de Camargo, de 83 anos, morreu na noite desta segunda feira (23), após 14 dias internado em um hospital particular em Goiânia para tratar de um sangramento no intestino. Aliás, ele estava internado no melhor hospital da Capital, o qual é gerenciado pelo Hospital Albert Einstein. Por meio de nota, o Hospital Órion informou que o paciente morreu às 23h05 por causa de uma parada cardiorrespiratória e uma "instabilidade hemodinâmica".

E tem mais. Ele foi enterrado no Cemitério Jardim das Palmeiras - onde meus avós e parte da minha família está enterrada, além de Leandro da dupla Leandro e Leonardo, e Cristiano Araújo. Hoje, Seu Francisco volta à terra de onde veio, no mesmo quintal e debaixo das mesmas árvores onde meus queridos dormem. E isso é muito especial.

Não vamos esquecer que Seu Francisco inovou quando pediu reiteradamente a música de seus filhos na Rádio Terra FM. Ele tem sua imagem ligada à figura dos' fandoms', uma espécie de fã-clube contemporâneo, que são responsáveis por brigas acirradas em eleições de melhores com votos abertos. Ele já agia assim, com um punhado de fichas telefônicas nas mãos, em uma época antes da era da internet.

Morador de Goiânia, ele reunia o dinheiro que tinha para pedir a todos os seus conhecidos (e desconhecidos) que ligassem para a rádio Terra FM (rádio local) e pedissem a música “É o amor”.

Ali, debaixo de um orelhão, e com um punhado de fichas telefônicas nas mãos, Francisco ajudou a mudar o rumo não só da sua história e de sua família, mas da história da música brasileira.

Descanse em paz, Seu Francisco. Que seja abençoada toda a sua prole.


Confira trecho do filme "Dois Filhos de Francisco" (2005):







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