• Silvana Marta de Paula Silva

Prenúncio de 'impeachment' na Prefeitura de Goiânia

Atualizado: Abr 10

Crise sem precedentes se instala no Paço Municipal após a morte de Maguito Vilela. Futuro de Rogério Cruz é incerto


Abril 9, 2021

Posse de Rogério Cruz (Republicanos) pelas mãos de Daniel Vilela (MDB)


Silvana Marta


No último dia 05/09 o MDB, partido do então prefeito eleito por Goiânia Maguito Vilela, anunciou renúncia coletiva, oficializando o rompimento com o prefeito Rogério Cruz (Republicanos), empossado após a oficialização da morte de Maguito em 13/01/2021.


Morte nebulosa


O prefeito licenciado de Goiânia, Maguito Vilela (MDB), morreu oficialmente na madrugada de uma quarta-feira de janeiro (13/1), aos 71 anos. Ele estava internado desde o dia 22 de outubro para tratar a Covid19, doença provocada pelo novo coronavírus. Vilela permaneceu internado por longos 83 dias. Maguito já havia perdido duas irmãs em menos de dez dias em outubro para a mesma doença, Nelma, de 76 anos e Nelita Vilela, de 82. Elas moravam em Jataí, cidade natal do político localizada no sudoeste de Goiás.

Ele morreu logo após todo o secretariado do MDB ter sido empossado baseado na ‘suposta’ vontade de Maguito Vilela, embora ele estivesse em estado gravíssimo desde que foi transferido para o Hospital Albert Einstein em São Paulo.


ECMO

Aparelho ECMO substitui pulmões e coração


O político testou positivo para o coronavírus no último 20 de outubro. Dois dias depois, foi internado em um hospital de Goiânia.

Em 27 de outubro, ele recebeu diagnóstico de até 75% de inflamação nos pulmões e um alerta para o nível crítico de saturação de oxigênio no sangue. No mesmo dia, foi transferido para São Paulo.

Em 30 de outubro, Maguito foi entubado, pela primeira vez, após piora no quadro respiratório. Em 8 de novembro, ele voltou a respirar sem o equipamento. O político apresentou piora e foi entubado pela segunda vez, em 15 de novembro, dia da votação. Dois dias depois, o candidato iniciou o tratamento respiratório com ECMO.

Maguito passou pela cirurgia de traqueostomia no dia 24/11 devido ao tempo de entubação, que torna esse procedimento agressivo ao paciente e prejudica as cordas vocais. Segundo os médicos que o acompanham no Hospital Albert, em São Paulo, isso não significou que houve piora.

Posteriormente apresentou sangramento pulmonar. De acordo com o documento, divulgado pouco antes da meia-noite do dia 10/12, o político "apresentou nova instabilidade hemodinâmica", e por isso foi submetido a uma cirurgia para conter a hemorragia pulmonar.

Segundo Turno

Maguito Vilela, do MDB, foi eleito em segundo turno (29/11) prefeito de Goiânia para o mandato de 2021 a 2024. Internado em tratamento contra o coronavírus, o candidato, mesmo doente e em estado gravíssimo, derrotou Vanderlan Cardoso, do PSD. Ao fim da apuração, ele obteve 52,60% dos votos válidos. Foram 277.497 votos no total.

O resultado foi divulgado às 18h42 do dia 29/12, e Vanderlan Cardoso teve 250.036 votos, o que totalizou 47,40% dos votos válidos. A eleição em Goiânia teve 36,75% de abstenção, 4,26% votos brancos e 9,86% votos nulos, o que significa que a somatória entre abstenção, nulos e brancos perfazem um total semelhante de votos ao que recebeu o eleito, ou seja, 50,87% dos votos. Isto quer dizer que nem Maguito Vilela ou Vanderlan Cardoso são unanimidades entre o eleitorado. A votação foi acirrada e demonstrou que os goianienses seguem divididos quanto à preferência política.

Posse ilegal?

O político, de 71 anos, disputou o 2º turno e foi eleito sem saber dos resultados das urnas, pois estava sedado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital de São Paulo.

A sua posse se deu de forma nebulosa, visto que o consentimento do empossante deveria ter sido devidamente tomado. No caso de Maguito Vilela, ele estava literalmente inconsciente, fato este que vedaria o ato da posse do político, o que não aconteceu. Se a posse tivesse seguido os protocolos legais, Maguito, doente, deveria ter tomado posse provisória de três meses, onde haveria tempo para se constatar se ele teria realmente condições de aguardar a melhora em seu quadro clínico.

O Hospital Albert Einstein divulgou boletim de que ele estava em condições de dar seu consentimento, embora na verdade não estivesse. Tal fato possibilitou que o prefeito eleito tomasse posse sem nem saber o que estava acontecendo.

Tempo Ganho

Isso garantiu ao filho do político, Daniel Vilela, presidente estadual do MDB em Goiás, a possibilidade de emplacar nomes de sua preferência, mesmo não tendo sido eleito para nenhum cargo nas eleições de 2020. O MDB ganhou tempo para poder tentar manter-se no poder para além da morte de Maguito Vilela.

Rogério Cruz apenas conseguiu tomar posse dia 15/1, após ter sido enterrado o então prefeito morto-vivo Maguito Vilela.

Desde então, o filho de Maguito Vilela vinha interferindo reiteradamente no comando da Capital, o que em tese configuraria em uma total ilegalidade e advocacia administrativa, o que é crime.

De lá para cá, como não poderia ser diferente, Rogério Cruz começou a tomar o comando paulatino da administração municipal e a dar corientações que trouxeram insatisfação à cúpula estadual do MDB.

Houve troca de cadeiras em secretarias importantes, como na Seinfra, onde contratos foram anulados, com o consequente pedido de demissão do então secretário, Luiz Bittencourt.

Obviamente, o prefeito empossado no legítimo exercício de seu mandato, Rogério Cruz, não rompeu com o MDB, mas o partido recebeu sua administração legítima como uma ingerência e um ‘insulto’ às mudanças efetuadas pelo prefeito Cruz.


Desembarque

Coletiva do MDB na manhã desta 2ª feira (5) - Foto: Reprodução


No dia 04/03, no diretório regional do MDB, os vereadores e o presidente estadual do MDB, Daniel Vilela entraram para uma reunião de emergência para a análise do rompimento da bancada com o atual prefeito do Republicanos, Rogério Cruz. De fora do Diretório Estadual em Goiânia, onde o encontro ocorreu, escutavam-se muitos gritos num indicativo que o clima foi bastante tenso. Parlamentares tentam demover a ideia do filho de Maguito em romper com o prefeito Rogério Cruz.

Mas não teve jeito.

O MDB rompeu com o Paço Municipal e alegou que o motivo da decisão foi o desgaste gerado por ações tomadas por Rogério, nas últimas semanas, e o avanço da direção nacional do Republicanos nas decisões da administração de Goiânia. “A mim foi recomendado que as discussões fossem feitas com a liderança nacional do partido (Republicanos) e não com ele (o prefeito)”, afirmou Daniel.

Desde a morte de Maguito, no dia 13 de janeiro, após 83 dias internado, o MDB seguia lado a lado de Rogério Cruz na gestão municipal e, em menos de três meses depois, rompeu.

Crise sem precedentes

Numa manobra inesperada, o MDB entregou 14 cargos de primeiro escalão na Prefeitura de Goiânia, quais sejam:

Secretaria de Finanças (Alessandro Melo); Procuradoria Geral do Município (Antônio Flávio de Oliveira);Secretaria de Desenvolvimento e Economia (Carlos Jr.); Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (Célio Campos); Controladoria Geral do Município (Colemar José de Moura); Secretaria de Relações Institucionais (Euler Morais); Secretaria de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas (Filemon Pereira); Secretaria Executiva de Assuntos Estratégicos (Gean Carlo Carvalho); Escritório de Prioridades Estratégicas (José Frederico Lyra Netto); Secretaria de Cultura (Kleber Adorno); Secretaria Extraordinária (Leandro Vilela); Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (Murilo Ulhoa); Secretaria de Mobilidade (Pedro Chaves); Secretaria de Planejamento e Habitação (Agenor Mariano).

Após renúncia coletiva, Rogério Cruz nomeou substitutos para as secretarias.

Turbulência


A administração municipal segue em turbulência. Nomes de última hora foram efetivados nas secretarias vacantes. Entretanto, a Câmara Municipal de Goiânia segue insatisfeita.

A verdade é que neste momento, há uma grande possibilidade de que o prefeito constitucionalmente empossado possa sofrer um impeachment que teria como carro chefe o MDB. Esse desembarque não aconteceu para que o partido de Daniel Vilela ficasse chupando dedo e chorando as demissões. O objetivo é o impeachment de Rogério Cruz, possibilidade que se desenhou com o desembarque coletivo do secretariado municipal.

Hoje o prefeito Rogério está muito pressionado pela direção da Câmara Municipal e segue tentando apagar o fogo do incêndio provocado pelo MDB e que acabou por atingir todos os demais partidos com representação na Câmara Municipal. Caso consiga, segue prefeito. Caso não consiga contornar a crise, seus dias estariam contados.


Política é como dinheiro: não aceita desaforo.




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